quinta-feira, 7 de julho de 2011

Manuela Bacelar: uma voz precursora na criação de álbuns em Portugal

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Parece evidente a insuficiente difusão e o injustificado silêncio crítico de que vêm sendo alvo alguns nomes incontornáveis do actual panorama editorial português para a infância, e de que padece, entre outros vultos de invejável mestria no domínio da escrita e/ou da ilustração, Manuela Bacelar (MB).


A par de um percurso durável enquanto ilustradora dos textos de vozes consagradas da Literatura Infantil e Juvenil lusa, a sua incursão no picture book converteu-a, há mais de duas décadas, numa das figuras precursoras e seguramente mais emblemáticas neste tipo de edição em Portugal, sobretudo no que à sua actividade de autora única diz respeito.


Ilustração de Tobias, os sete anões e etc.


Recorrendo, pois, às técnicas de construção de um dos mais ousados e complexos segmentos no quadro da produção editorial para os mais novos, cujo discurso narrativo resulta fundamentalmente da cúmplice interacção dos códigos verbal e visual, predominam, na obra de MB, ambientes que oscilam entre a realidade e o universo fantástico/onírico, personagens infantis e/ou animais humanizadas, incluindo outras figuras tipificadas do imaginário da criança, bem como eixos ideotemáticos (alguns emergentes, como o multiculturalismo e a homossexualidade) ligados à tolerância e à diferença, à viagem, à liberdade e ao sonho. Desenvolvidas em torno de acções precisas e condensadas, as suas narrativas, frequentemente construídas a partir de mecanismos metatextuais e metaficcionais, mantêm ainda, do ponto de vista do tratamento diegético, a coloquialidade e a vivacidade discursiva mais apropriadas à competência leitora infantil.

Seja num conto autónomo (como nos títulos O Dinossauro (1990), O Meu Avô (1990), Bernardino (2005), O Livro do Pedro (2008), editados pelas Edições Afrontamento) ou integrado numa colecção (recordem-se as séries “Tobias” (Porto Editora) e “Bublina” (Desabrochar), ambas editadas na década de 90), seja num álbum de tipo narrativo ou visual (como é o caso dos álbuns Tobias, os sete anões e etc. (1990) e Sebastião (2004), quase exclusivamente compostos por imagens), MB deixa-se levar pelo experimentalismo e desobedece, sem medos, aos cânones convencionais da representação textual e visual, combinando múltiplos discursos, vozes e registos linguísticos, e pondo em diálogo diversas visões do mundo.


Ilustração de Tobias, os sete anões e etc.


Numa engenhosa combinação estética e literária, em que o maravilhoso e o humor (e, até, a ironia) são estruturantes, o texto, tendencialmente mais neutro, alia-se a amplas e expressivas ilustrações, onde as reiteradas referências intertextuais/interartísticas desempenham funcionalidades semânticas, apelando, não raras vezes, a um leitor experiente pela pluralidade de níveis de leitura que induzem.

Diversas vezes premiada e com mais de meia centena de publicações em Portugal e no estrangeiro, MB é autora de uma obra sui generis que merece ser conhecida por leitores de todo o mundo e de todas as idades.


Carina Rodrigues

Originalmente publicado em El Correo Gallego, a 31 de Maio de 2011

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