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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O dinossauro, de Manuela Bacelar

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Num registo em primeira pessoa e aparentemente infantil, O dinossauro, primeiro álbum escrito e ilustrado por Manuela Bacelar, narra a viagem de um gigante dinossauro que acorda, passados milhões de anos, levando consigo todas as «pessoas e animais» que nele moravam por acreditarem tratar-se de um monte.

Numa combinação sinérgica de palavras e imagens, os habitantes desta inusitada aldeia são levados a percorrer os mais variados cantos do mundo e a ver «gente igual, gente diferente», «casas de todos os tamanhos», cores e feitios. Assente no recurso a uma estrutura paralelística, a componente plástica deste volume convida a criança-leitora a conhecer os lugares, os climas e os ciclos diários mais contrastantes, viajando por países desérticos e quentes, e por outros mais povoados e frios, onde «num instante era noite, e num instante era dia».

As valiosas composições pictóricas que ocupam as suas duplas páginas – frequentemente dispostas num formato sangrado – sensibilizam o leitor para a magnificência da diversidade étnica/racial e cultural universal.





Transportado para o coração dos cinco continentes, o leitor é levado a descobrir personagens diferentes pela cor, fisionomia e indumentária – incluindo outras figuras do imaginário infantil e perfeitamente adequadas às suas preferências pela ludicidade e pelo encantamento que promovem –, e a deslumbrar-se com alguns monumentos, habitações e outros ícones representativos dos mais variados países, activando a sua curiosidade por tradições, costumes e experiências de vida alheias.




Porque aceitar a diferença implica ir mais além do reconhecimento e acolhimento de uma multiplicidade de sujeitos e de práticas, mais do que informar o leitor da coexistência de diversas nações e culturas, no trilho de uma educação multicultural, O dinossauro pode muito bem contribuir para uma consciencialização da importância e da necessidade de uma convivência entre elas, elucidando acerca da riqueza e dos benefícios de um diálogo intercultural, não apenas de um ponto de vista social como científico e formativo.


Ficha técnica:

Título O dinossauro | Autor Manuela Bacelar | Ilustrador Manuela Bacelar | Editora Afrontamento | Data de edição 1990 | ISBN 972-36-0248-2


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Breves notas biobibliográficas:


Manuela Bacelar nasceu em Coimbra, em 1943, e realizou os seus estudos secundários na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, no Porto, concluindo, em 1970, o Curso de Ilustração na Escola Superior de Artes Aplicadas, em Praga.


Dedicada à ilustração desde 1988, a autora e artista plástica conta já com inúmeras exposições individuais e colectivas, participando regularmente em Bienais de Ilustração, assim como em Exposições Internacionais de Ilustração, tendo sido seleccionada pela Diesertina Veriag para o livro Modernos Ilustradores Europeus. Em 1989, foi premiada com a Maçã de Ouro da Bienal Internacional de Bratislava e, em 1990, com o Prémio Gulbenkian de Ilustração, pelas suas ilustrações em Silka de Ilse Losa (1989).


Conhecida do público infantil, há perto de três décadas, por uma obra consistente, e merecedora de várias distinções ao nível nacional e internacional, Manuela Bacelar afirmou-se, sobretudo, enquanto pioneira na criação de álbuns infantis em Portugal, sendo autora e ilustradora da maioria das suas obras.


Em 1992, foi Nomeada para o Prémio Octogones em França, pelo seu título O Meu Avô (1990), cuja tradução lhe concedeu, em 1993, o Prémio Paolo Vergero da Universidade de Pádua (Itália) e, em 1994, o Prémio Octogones para um dos melhores livros estrangeiros publicados em França, Mon Grand Père. Em 1996, é-lhe atribuído, ainda, o Prémio de ilustração do Ministério da Cultura/IBBY pelas ilustrações de A Sereiazinha de A. C. Andersen e, no ano de 2000, recebe o Prémio António Botto de Literatura Infantil, pela sua produção artística em A Borboleta Leta de Maria de Lourdes Soares.


A par da sua actividade plástica que a levou a assinar, já, cerca de 150 textos visuais, Manuela Bacelar é, ainda, autora de um conjunto significativo de obras, contando, já, com mais de meia centena de publicações em Portugal, Dinamarca, França, Japão, Marrocos e Líbano, ocupando, assim, um lugar incontestável no universo da literatura portuguesa contemporânea para a infância.



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Manuela Bacelar: uma voz precursora na criação de álbuns em Portugal

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Parece evidente a insuficiente difusão e o injustificado silêncio crítico de que vêm sendo alvo alguns nomes incontornáveis do actual panorama editorial português para a infância, e de que padece, entre outros vultos de invejável mestria no domínio da escrita e/ou da ilustração, Manuela Bacelar (MB).


A par de um percurso durável enquanto ilustradora dos textos de vozes consagradas da Literatura Infantil e Juvenil lusa, a sua incursão no picture book converteu-a, há mais de duas décadas, numa das figuras precursoras e seguramente mais emblemáticas neste tipo de edição em Portugal, sobretudo no que à sua actividade de autora única diz respeito.


Ilustração de Tobias, os sete anões e etc.


Recorrendo, pois, às técnicas de construção de um dos mais ousados e complexos segmentos no quadro da produção editorial para os mais novos, cujo discurso narrativo resulta fundamentalmente da cúmplice interacção dos códigos verbal e visual, predominam, na obra de MB, ambientes que oscilam entre a realidade e o universo fantástico/onírico, personagens infantis e/ou animais humanizadas, incluindo outras figuras tipificadas do imaginário da criança, bem como eixos ideotemáticos (alguns emergentes, como o multiculturalismo e a homossexualidade) ligados à tolerância e à diferença, à viagem, à liberdade e ao sonho. Desenvolvidas em torno de acções precisas e condensadas, as suas narrativas, frequentemente construídas a partir de mecanismos metatextuais e metaficcionais, mantêm ainda, do ponto de vista do tratamento diegético, a coloquialidade e a vivacidade discursiva mais apropriadas à competência leitora infantil.

Seja num conto autónomo (como nos títulos O Dinossauro (1990), O Meu Avô (1990), Bernardino (2005), O Livro do Pedro (2008), editados pelas Edições Afrontamento) ou integrado numa colecção (recordem-se as séries “Tobias” (Porto Editora) e “Bublina” (Desabrochar), ambas editadas na década de 90), seja num álbum de tipo narrativo ou visual (como é o caso dos álbuns Tobias, os sete anões e etc. (1990) e Sebastião (2004), quase exclusivamente compostos por imagens), MB deixa-se levar pelo experimentalismo e desobedece, sem medos, aos cânones convencionais da representação textual e visual, combinando múltiplos discursos, vozes e registos linguísticos, e pondo em diálogo diversas visões do mundo.


Ilustração de Tobias, os sete anões e etc.


Numa engenhosa combinação estética e literária, em que o maravilhoso e o humor (e, até, a ironia) são estruturantes, o texto, tendencialmente mais neutro, alia-se a amplas e expressivas ilustrações, onde as reiteradas referências intertextuais/interartísticas desempenham funcionalidades semânticas, apelando, não raras vezes, a um leitor experiente pela pluralidade de níveis de leitura que induzem.

Diversas vezes premiada e com mais de meia centena de publicações em Portugal e no estrangeiro, MB é autora de uma obra sui generis que merece ser conhecida por leitores de todo o mundo e de todas as idades.


Carina Rodrigues

Originalmente publicado em El Correo Gallego, a 31 de Maio de 2011